O aparecimento da máquina produz um corte epistemológico na história das civilizações. A modernidade, após a Revolução Industrial e a alteração nos modos de produção, constitui um dos períodos de maior turbulência de valores no mundo ocidental. E a arte moderna, em consequência, passa a se polarizar entre movimentos de maior ou menor adesão à era mecânica. O construtivismo, ativo na Europa nos primeiros 30 anos do século 20, surge como o grande porta-voz de uma arte objetiva, trazendo uma visão otimista da técnica. 

Quando o Brasil adere à abstração geométrica, nos anos 1950, parece enfim resolver seu impasse diante dos padrões formais modernos. As formas objetivas de Mondrian, Malevitch, Tatlin, Kandinsky e outros construtivistas haviam aportado no país para sedimentar entre nós a crença no mundo progressista regido pela razão técnica. E, com o projeto construtivo brasileiro, dava-se o salto definitivo para a conquista da modernidade. Afinal, ao assumir os princípios da abstração geométrica, o Brasil participava de uma emancipação das velhas regras da representação, instaurando um novo olhar e um vínculo explícito com a racionalidade. 

É nesse contexto que surge Abraham Palatnik, que já no final dos anos 40 iniciava no Rio de Janeiro sua pesquisa no campo da luz e do movimento, criando aparelhos de projeção luminosa movidos por eletricidade. Após uma formação na área de mecânica na cidade de Tel Aviv, onde passou parte da juventude, o artista assume o desafio de tornar a ordem técnica um instrumento criativo. O ano de 1951 marca a primeira exibição de seus aparelhos, conhecidos como Cinecromáticos, na 1ª Bienal de São Paulo. Estranhos aos parâmetros de classificação das obras de arte convencionais, os cinecromáticos declaravam uma revolução nos gêneros da tradição, um conluio vigoroso com o mundo da máquina e a abertura da arte a novos meios de expressão. Palatnik tornava-se, ademais, um dos pioneiros mundiais da arte cinética.

A exposição desses aparelhos, entretanto, não se deu sem percalços. O artista teve dificuldade em ter sua obra aceita pela Bienal por falta de afinidade com as categorias tradicionais – pintura, escultura, gravura ou desenho –, ficando, assim, impedido de concorrer a prêmios e só participando por conta da desistência da representação do Japão. O fato demonstra a falta de familiaridade do meio de arte no Brasil da época com as novas mídias e linguagens, e o quanto o aparelho cinecromático de Palatnik deve ter significado em termos de rompimento de barreiras. Pode-se certamente afirmar que essa obra, essa formidável máquina pictórica de cores e luzes, foi a primeira experiência da arte brasileira com a tecnologia, legitimando historicamente a inserção do artista no panteão dos grandes mestres. 

Na fronteira entre a pintura e o cinema, as caixas luminosas de Abraham Palatnik tornaram-se um marco arrojado no cenário artístico nacional, ecoando a hibridização das artes visuais com a ciência, e abrindo a marcha irreversível que os meios técnicos teriam no período contemporâneo. Em depoimento de 1960 ao crítico Jayme Maurício, no antigo jornal carioca Correio da Manhã [citado por Luiz Camillo Osório em Abraham Palatnik, CosacNaify, 2004], o artista declarou que o aparelho cinecromático possibilitava “a realização concreta do problema do tempo, espaço, movimento e dinamismo”, questão que se tornaria recorrente em todo o conjunto de sua obra.  

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