Numa época em que precisamos urgentemente de maneiras novas e inspiradoras de estar no mundo, despontam dois espaços culturais no Rio de Janeiro com propostas híbridas e engajadas em transformar (e resgatar) desde os seus prédios históricos às pessoas que gravitam em seu entorno. Vivendo entre os valores que organizaram a nossa sociedade no passado e os que possibilitarão delinearmos um futuro mais sustentável, saudável e desejável, o Solar dos Abacaxis e o Saracura atuam no campo generoso da cultura, da cocriação e da troca de experiências, conhecimento e projetos, que resistem ao retrocesso e apontam caminhos que entoam progresso.

Ambas as iniciativas nasceram do encontro entre agentes de diferentes campos – educação, curadoria artística, arquitetura e produção – e a possibilidade de reativarem prédios históricos em decadência. O Solar dos Abacaxis ocupa um casarão neoclássico no Cosme Velho construído em meados do século 19 e há muitos anos desocupado, enquanto o Saracura, na zona portuária, está em um prédio do início do século 20, onde funcionava uma hospedaria popular que foi incendiada no ano passado. Hoje, os espaços que estavam no limbo ganham novos ares e propósitos por meio de programas culturais que são desenhados de forma orgânica, orientados não somente pelos ideais e objetivos de quem os lidera, mas também pelas possibilidades que nascem da interseção de experiências dos públicos ecléticos que se identificam com as iniciativas.

A antiga propriedade de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, poeta e feminista, é um ícone do Cosme Velho. A fachada rosa desbotada remete a uma outra época, mas um trecho de um poema que ela escreveu já vislumbrava que a casa se tornaria, em algum momento futuro, um catalisador de transformações profundas: “Essa casa vai ser algum dia/ um centro de ciência e de arte/ um refúgio da história e da poesia./ Aqui os jovens virão sonhar,/ virão ler e estudar/ realizando o nosso sonho de cada dia.”

As atividades da proposta de espaço cultural que herda esse sonho tiveram início na época das Olimpíadas do Rio, com uma programação voltada ao tema do refúgio, abrindo uma discussão de relevância global sobre a fragilidade dos sistemas governamentais em um momento em que a cidade celebrava a reunião de diferentes nações. O Solar não pretende ser uma instituição rígida e autocrata, mas uma plataforma em constante transformação e um espaço de acolhimento – a extensão de um lar para quem nele enxergar sinergia com os seus próprios valores e fazeres. No Solar, exposições temporárias de artes visuais, cursos, festas e, num futuro próximo, residências artísticas, orbitam juntos em torno de temáticas que possam ser exploradas em vários campos de conhecimento. O projeto Manjar, que acontece toda quinta-feira, ressalta o valor cultural e social da culinária e tem parceria da Junta Local, uma organização em rede que aproxima pequenos agricultores dos consumidores finais. Existe a intenção de, em breve, derrubar o muro que separa o imóvel tombado da comunidade Cerro Corá, e assim formar um campo aberto, interligado e de interlocuções. 

Leia a matéria completa na Bamboo de dezembro, nas bancas.