Lisboa está sendo invadida por um segundo maremoto, desta vez, de turistas que a redescobrem graças ao milagre de voos “low cost”, “stopovers”, Airbnb e outros malabarismos dos globetrotters de fim de semana. Na era das selfies, surge uma fotogênica oitava colina à beira do Tejo: o Maat – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. 

A imagem não poderia ser mais reveladora: no início de outubro dezenas de milhares de visitantes vieram para a pré-inauguração do museu, tantos que a única passarela que permite atravessar a avenida da Índia e as linhas de trem foi interditada – um mar de gente resvalando em direção ao Tejo. Apenas 22 dos 60 mil peregrinos fiéis de Nossa Senhora da Selfie puderam ter uma primeira visão das entranhas da milagrosa gruta concebida pela arquiteta inglesa Amanda Levete.

Coincidentemente, a passarela interditada em Belém fica em frente ao Museu dos Coches, de Paulo Mendes da Rocha. Uma segunda passarela, parte do projeto original, continua inacabada, a revelar certo descaso da administração pública que legou ao museu desenhado pelo brasileiro orçamento mínimo para a gestão.

São mundos opostos separados por 200 metros: de um lado, o formalismo modernista do Museu dos Coches, a levitar sobre corajosos vãos, materiais brutos e absoluta ortogonalidade, o conjunto a abrigar magníficas carruagens de um Portugal nostálgico, um equipamento público cuja passarela inacabada cristaliza os limites entre arquitetura e gerenciamento; do outro, o formalismo paramétrico do Maat, que surge das margens do estuário com uma única fachada coberta por cerâmicas tridimensionais e geometria orgânica, a propor exposições sobre a interseção entre arte, arquitetura e tecnologia num país que busca reinventar sua inserção no mundo; um equipamento privado cuja passarela própria será inaugurada com o museu em março de 2017. Entre ambos, o imponente edifício da antiga usina elétrica da Central Tejo. Arquitetura, gestão, urbanismo, crise, turismo predatório, público vs. privado. Por onde começar? Pelo Tejo, sempre.

Além da arquitetura
Ao longo das últimas décadas, Lisboa tem investido no eixo que vai do Terreiro do Paço até Belém; a cidade volta-se para o estuário e tem observado a explosão do número de turistas. É impossível não pensar na reinvenção de Barcelona ou no indiscreto Guggenheim de Bilbao, provas de que o dinheiro compra, sim, a imagem da felicidade. O interessante é que Lisboa, primeiro, apostou suas fichas a dez quilômetros dali, no Parque das Nações da Expo 98, com resultados ambíguos, conforme o abandonado Pavilhão de Portugal, de Álvaro Siza. 

Em Belém, ao contrário, houve superposição de esforços entre iniciativas estatais e particulares. Nesse contexto, o Maat surge como fruto do mecenato da EDP – Energias de Portugal.

A Fundação EDP, braço cultural da empresa, primeiro investiu na Central Tejo, impressionante estrutura do início do século 20 que alimentou a cidade por mais de cinco décadas. Convertida em Museu da Eletricidade, a Central, hoje, integra o corpo principal do Maat. A própria sede da EDP, à beira dos mesmos trilhos que separam o Maat do resto da cidade, foi projetada pelos irmãos Aires Mateus. Em 2010, o CEO da empresa, António Mexia, solicitou diretamente a Amanda Levete que concebesse um anexo no espaço adjacente à Central Tejo então delimitado por um enorme muro que separava a cidade do rio.

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