No primeiro piso do Pavilhão da Bienal, próximo ao vazio central do edifício de Oscar Niemeyer, a dupla de artistas lituanos Nomeda & Gediminas Urbonas materializou estufas de aspecto laboratorial, onde propõe a realização de experiências de manipulação de resíduos orgânicos e matéria viva no feitio de objetos em forma de cúpulas ou vasos. Nesses quartos climatizados, modulares e plastificados, munidos de apetrechos de um ambiente asséptico, convida-se o público a participar e, de fato, ativar o processo artístico, conformando a matéria-prima nos moldes, observando as interações entre espécies e o eventual crescimento de cogumelos. 

Intitulado Psychotropic House: Zooetics Pavilion of Ballardian Technologies, o trabalho, que fica exposto até 11 de dezembro na 32ª Bienal de São Paulo, é uma nova versão do projeto que fora montado por ocasião da 12a Baltic Triennial, que aconteceu Vilnius, Lituânia, em 2015. Os dois artistas – pesquisadores e professores – trabalham colaborativamente desde o final dos anos 1990, tendo participado de importantes exposições e projetos internacionais. Nascidos na antiga União Soviética e formados em um contexto de rearranjos territoriais e produtivos após a queda do muro de Berlim, os artistas ensejaram a construção de uma relação espaço-temporal peculiar em suas práticas artísticas, pesquisas e escritos, que espelham a própria ambiguidade vivenciada em seu lugar de origem – tradição e novidade; pertencimento e deslocamento; trauma e mudança, entre outras dicotomias.

Vinculados ao programa de pós-graduação do MIT em Arte, Cultura e Tecnologia (ACT-MIT), parte da Escola de Arquitetura e Planejamento desse instituto tecnológico no Massachusetts, os dois trabalham de maneira transdisciplinar entre diversas áreas do conhecimento, especialmente as que investigam os processos criativos contemporâneos, como performance, vídeo, instalação, design e arquitetura. Tanto academicamente quanto artisticamente, eles constroem plataformas experimentais educativas de engajamento no que ainda se entende como esfera pública, atuando em uma zona fronteiriça e incerta das negociações políticas entre o espaço público e o lugar do privado.

Conversamos com a dupla alguns dias após a abertura da mostra, em um momento de organização de uma rotina complexa de trabalho que demanda comunicação e interação entre os mais diversos públicos, os mediadores da exposição, a matéria-prima de seus experimentos e, em última instância, as ideias geradoras da pesquisa.

Bamboo Vamos começar pelo título do trabalho, que já coloca em evidência uma série de aspectos interessantes sobre a natureza da pesquisa. Em português, poderia ser traduzido como “Casa Psicotrópica: Pavilhão Zooético de Tecnologias Ballardianas”.
N. & G. Urbonas Bem, não se trata de uma sugestão arquitetônica factível. O termo “casa” é menos um lugar de habitação e mais um ambiente de construção de uma experiência processual. Não fazemos modelos arquitetônicos nem promovemos tecnologias construtivas, mas abrimos um campo de possibilidades inventivas que lidam diretamente com o que a natureza nos fornece, e que nos ajudam a questionar os nossos próprios modelos de projeto. “Tecnologias ballaradianas” é uma referência literária direta aos textos ficcionais de J. G. Ballard [1930-2009], especialmente ao livro Vermilion Sands (1971). Obviamente, evocamos algumas ideias radicais da década de 70. No ambiente aqui construído, delimitamos um perímetro em que a própria compreensão de arte implica a prática experimental e educacional. O entendimento de zooética sugere ao participante a intenção de buscar novas maneiras de integração da racionalidade humana às demais espécies, um olhar para a própria biodiversidade.

Confira a entrevista completa com a dupla de artistas na edição de novembro da Bamboo, nas bancas.